Prateleiras

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Fogo Vermelho - Trecho e Prévia da Capa

Olá, pessoal!
Uma boa parte de vocês já sabe que tenho trabalhado duro na revisão do segundo livro na cronologia da Saga - Fogo Vermelho. A data prevista para o lançamento é 1º de julho e pretendo cumprir o prazo como uma boa menina, rsss.
Para acalmar a ansiedade (ou aumentar, depende do referencial), resolvi trazer mais um trechinho inédito (ou quase, pois quem é cadastrado no portal da Saga leu em primeira mão, no feriado) e também um dos testes para a capa do livro. Capa essa que está sendo criada em parceria com a Anne Marie
Bem, espero que curtam o trecho e que deixem seus comentários. Adoro "ler" pelos olhos de vocês.

BJS da Drica ;-)


PS: lembrando que o sorteio de "O Reino dos Céus" é só até essa sexta!

1178
O inverno, naquele ano, estava mais rigoroso. Ou talvez ela estivesse sentindo mais frio do que o de costume pelo fato de estar sozinha no mundo, expulsa de seu lar, vagando como um bichinho selvagem pelas florestas, evitando o contato com as pessoas.
O peito se apertou de novo, mais do que o estômago vazio. A lembrança da mãe sentada diante da lareira com um bordado no colo, do pai e de seu cão de caça deitado à frente do fogo, e do cheiro da carne que assava num espeto, assaltou-a com uma força tão grande que chegou a recuar um passo. Mais do que o medo de estar só, e de morrer de frio e de fome, havia a solidão. Era um preço alto demais, era um custo demasiado grande, um fardo por demais pesado para seus ombros de menina.
Sobrevivência. Era preciso sobreviver.
Apertou com força o volume metido nas dobras do vestido roto e fino demais para suportar o frio; a Bíblia de sua família. Enxergou, - sem sequer precisar vê-lo, ou tocá-lo de verdade - o pedaço de tecido azul, e a raposa que parecia sempre rir dela.
Sobrevivência e vingança. Uma alimentava a outra. As duas a mantinham viva.
- Um dia... - murmurou.
Irritada consigo mesma, passou a mão pelo rosto sujo de terra, secando as lágrimas. Retomou a vigilância, espreitando de novo os fundos da taverna. A mulher entrara fazia pouco, mas não fechara de todo a porta, como deveria fazer num frio daqueles. Radegund sorriu.
Havia uma semana que ela e a taverneira estavam naquela espécie de jogo. Tudo começara quando ela fora vista roubando um filão de pão. A mulher gritara por ela, e a perseguira pelo quintal. Apavorada, temendo ser apanhada e mandada para os lugares onde deixavam os órfãos - e que sabia serem antros de perversidade - ela simplesmente fugira de novo para a floresta. Ninguém a caçara. E ela acabara voltando aos fundos da taverna, em busca de comida e de roubar um agasalho. Suas poucas roupas já estavam em farrapos. Porém, não se atrevia sequer a procurar abrigo numa igreja. O mundo era muito arriscado para uma menina sozinha.
Por muito tempo ela ficou vigiando. Estática, as roupas encardidas mesclando-se ao marrom das árvores tingidas pelo inverno. O céu se tornou escuro, e o frio mais intenso. Pôs as mãos enroladas em luvas furadas diante da boca e soprou nelas o ar quente, numa patética tentativa de se aquecer. Imaginou se haveria um fogo aceso na cozinha, e se haveria como ficar diante dele apenas pelo tempo suficiente para fazê-la parar de tiritar de frio..
Quando a lua crescente, uma fina fatia de luz apenas, despontou no céu, ela soube que era tempo de se mexer. Ignorou as dores nos membros, depois de tanta imobilidade, e atravessou o quintal. Pé ante pé, caminhou até a porta dos fundos da taverna. Àquela hora não havia mais movimento algum. Os fregueses, mesmo os mais tardios, já teriam se retirado e o casal de proprietários estaria dormindo.
Sua mão tocou a madeira áspera e empurrou a porta devagar. Meteu a cabeça, e logo em seguida o corpo, pela fresta estreita. Ajustou a visão ao ambiente escuro e aspirou o cheiro de carne cozida e cerveja. Sua boca se encheu d’água, e as lembranças de sua mãe e sua casa lhe trouxeram novamente lágrimas aos olhos. Respirou fundo e tentou não chorar mais uma vez. De nada lhe adiantaria. Lágrimas não encheriam sua barriga, nem lhe aqueceriam o corpo.
Estendeu a mão para o filão de pão deixado sobre a mesa, no mesmo instante em que uma lâmpada de óleo foi acesa.
- Boa noite, meu caro visitante!
A voz carregada do sotaque provinciano da mulher ribombou como um trovão dentro da cozinha. Assustada, Radegund deixou cair a trouxa que segurava. Seus olhos se arregalaram e encarou a mulher. Em sua cabeça só havia um objetivo. Fugir.
A taverneira logo notou sua intenção, bloqueando a porta com o próprio corpo. E para seu espanto, sorriu e apontou-lhe a cadeira.
- Vamos, criança. Sente-se e coma. Não lhe farei mal algum.
Radegund ergueu uma das sobrancelhas, desconfiada. A mulher espiou-a com mais atenção, estreitando os olhos escuros.
- Ora essa... Mas... você é uma menina!
- Deixe-me sair, dona – pediu, lutando para manter a voz firme. Demonstrar medo era um erro, já havia aprendido – só quero um pedaço de seu pão. Juro que não vim roubar suas moedas.
- Nada disso – a mulher se adiantou, fazendo-a se sentir ainda mais acuada.
Era grisalha e opulenta. Mas não era uma figura ameaçadora, muito pelo contrário. Tinha um olhar simpático e parecia até mesmo que em seu rosto havia um meio sorriso. Ela, porém, vivendo segregada de contato humano na maior parte do tempo, habituara-se a desconfiança, fazendo dela sua natureza e seu meio de sobrevivência.
Recuou, pronta para fugir, ao passo que a taverneira a surpreendia, dizendo com um sorriso gentil.
- Sente-se, por favor, menina. Lá fora está frio demais. Aqui tenho uma sopa quente e uma enxerga perto da lareira. Além disso – deliberadamente deu-lhe as costas, desafiando-a a fugir – há outros perigos que espreitam uma mocinha pelo mundo afora. – ela olhou de novo para o rostinho sujo de pó e os cabelos emaranhados presos numa trança mal feita – Qual é o seu nome? O meu é Lina. Eu e meu marido Pierre somos os donos da taverna.
Radegund estreitou os olhos, observando a mulher. Havia qualquer coisa nela que inspirava confiança, mesmo que isso fosse contra todas as precauções dentro das quais se habituara a viver nos últimos tempos. E foi com surpresa até para si mesma que se apanhou revelando-lhe seu nome de batismo.
- Sou Radegund.
- E o que faz perdida pelo mundo, jovem Radegund? – a mulher chamada Lina lhe estendeu um prato de sopa e um pedaço de pão, que foram vorazmente atacados.
De boca cheia, Radegund respondeu.
- Minha família morreu.
A piedade transbordou dos olhos da mulher. Ela se sentou num banco, do outro lado da mesa e ficou observando-a comer, até que perguntou.
- Não tem onde ficar, nenhum lugar melhor do que a floresta para ir?
Radegund fez que não com a cabeça, enquanto engolia o máximo de comida que podia. A taverneira pensou por um tempo. Coçou a cabeça e depois a encarou.
- Sabe, estamos precisando de uma ajudante. - explicou, dando a impressão de que o que oferecia era algo sem importância, uma barganha; como se fosse ela, Radegund, que estivesse lhe fazendo um favor, e não o contrário - Meus ossos doem no inverno e não dou conta de todo serviço. Ofereço casa, comida e um quarto aquecido no sótão.
- Por quê? – ela franziu o cenho, temerosa. Já vira muita coisa desde que perdera sua casa, tanta perversidade, tanta maldade! Sabia que ninguém fazia uma oferta daquelas sem querer nada em troca. E se a mulher a quisesse para vendê-la a homens que gostavam de usar meninas?
- Uma mão lava a outra, mocinha. - a mulher se apressou em dizer, imaginando para onde os pensamentos da garota enveredavam - Você precisa de um lugar para dormir. Eu preciso de alguém para me ajudar. E então, o que me diz? Temos um acordo?
Radegund pensou por um bom tempo, enquanto devorava mais um prato de sopa. Não era oportunidade que se jogasse fora. E se, no fim das contas, as coisas não corressem conforme o prometido, ela fugiria. Decidida, ergueu os olhos do prato e respondeu.
- Feito.

3 comentários:

AnneMarie disse...

Oh my God!!!!
Esse trecho está maravilhoso Drica! Minha nossa, detalhes perfeitos que era possível visualizar a cena!
Chega julhoooooooooooooo!!!!!!!

romancesinpink.com.br disse...

Você quer me matar?!?! Eu não vou conseguir esperar até julho!!!

bjos

escritorasteens disse...

Olá!
Aposto que no fundo você sempre teve vontade de ter um conto publicado.
Não?
Ainda ta em tempo de mudar de idéia..rs
Sim?
Que bom, pois temos uma ótima oportunidade pra você.
Ficou interessado?
Acesse: http://escritorasteens.wordpress.com e saiba como participar.
Caso não seja a sua praia escrever, aposto que conhece alguem que queira, então peço que divulguem para que quem tem sua historia publicada possa ter essa oportunidade.
Agradeço a todos.
Bjks
Nath Souza