sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Literatura Estrangeira 2019 #2 - A Esposa do Soldado - Merline Lovelace


O convite inesperado chegou nos últimos dias de 2018: “Drica, você leria um livro da Merline Lovelace que ainda será lançado? ” O que acham que respondi, sim ou com certeza? 

Foi assim que começou minha incrível jornada ao inóspito e recém-nascido Wyoming de 1867. Uma estadia fascinante, intensa, profunda e, às vezes, brutal no lendário Forte Laramie. 

O romance “A Esposa do Soldado”, da americana e ex-oficial da Força Aérea Merline Lovelace, me prendeu do início ao fim. Com sua escrita precisa e repleta de detalhes minuciosamente pesquisados, Merline nos transporta para dentro do cotidiano das pessoas endurecidas e resistentes que vivem na fronteira dos jovens territórios americanos. 

A autora tem uma longa lista de romances históricos em seu currículo e, para mim, pode ser considerada uma verdadeira Diva do gênero. Suas histórias, sempre ricamente pesquisadas, parecem ter encontrado o ápice neste livro. Cada ínfimo detalhe da ambientação foi pesquisado, de forma que nos sentimos parte dos residentes de Laramie. Como, por exemplo, na cena em que os contingentes do Forte recebem seu pagamento. Até mesmo o valor do soldo das diferentes patentes e das lavadeiras ela pesquisou! Fiquei impressionada com toda essa riqueza que, longe de ser apresentada de forma descritiva e monótona, é inserida na trama naturalmente, sem didatismo. Pura arte! 

Dentro de todo esse contexto, temos o romance entre Julia Rubichaud e o major Andrew Garrett, que é tão intenso, selvagem e cru quanto as intermináveis terras das planícies. Somos tragadas para o redemoinho de emoções que se torna a vida de Julia e de sua filha Suzanne. Ambas são abandonadas no Forte Laramie pelo condutor de sua caravana, já que seus recursos para pagar pela viagem se esgotaram. Em sua chegada ao Forte, a sulista e empobrecida Julia é confrontada com um passado que tenta a todo custo esquecer. O major Garrett, que um dia foi um espião ianque infiltrado em Nova Orleans, e com quem ela se envolveu e se casou em segredo, é nada menos do que o segundo em comando de Laramie e tem seu destino e o de sua filha nas mãos. E para Julia essa é uma notícia péssima, já que ela delatou Andrew ao tio, o que quase custou a vida dele. Aliás, até dar de cara com Andrew no Forte Laramie, Julia acreditava que ele havia morrido. Ou seja, é o mundo desabando na cabeça desses dois! 

A história de superação de Julia, que antes da guerra e da pobreza era conhecida como A Bela de Nova Orleans, é por si só apaixonante. Decidida a sustentar a si e à filha, ela passa por muitas privações que, ao contrário de abatê-la, vão torná-la cada vez mais forte e independente como nem a própria Julia acreditava que poderia ser. 

Tanto Julia quanto Andrew guardam profundas mágoas um do outro. Ela se sente traída e usada por ele. Ele se sente traído e ressentido com ela. Nenhum dos dois confia um no outro. A rusga entre eles é tamanha que em determinado momento chegamos a pensar: não tem como esse casal dar certo. Mas é aí que entra Merline, nossa especialista em juntar casais muuuuito diferentes (quem já leu A Teia do Destino e Tormenta de Emoções que o diga...). E ela faz tudo isso sem que a história perca a verossimilhança. Acho isso incrível! 

Andrew é um protagonista que talvez não agrade logo de cara. Tem um caráter honesto, direto e profundamente correto. Ele é tão duro quanto a vida que leva em Forte Laramie, mas seus homens têm tanta confiança em sua liderança que poderiam segui-lo ao inferno. O major não faz o tipo romântico, nem tampouco é um “gostosão”. Ele é simples, quase grosso às vezes, mas com um coração grande e justo. Sua luta contra os próprios fantasmas é outra nuance do livro que me conquistou. 

Existem cenas muito duras e muito cruas no livro. Cenas que talvez possam chocar algumas pessoas, especialmente uma delas. Mas só uma escritora muito corajosa e muito sensível como a Merline poderia escrever uma cena daquelas e nos fazer sentir o quanto a época em que se passa o romance era dura e hostil, principalmente para as mulheres. 

Outro ponto de destaque são os personagens secundários. Longe de serem apenas um desfile de nomes que são largados aqui e ali para servirem de escada para as cenas dos protagonistas, eles tem dimensões e se tornam familiares e queridos ao longo da narrativa. Tanto que nós nos vemos torcendo por seus destinos também, tanto quanto torcemos para Julia e Andrew se acertarem. E para a filha de Julia, Suzanne, deixar de ser uma chata insuportável. 

Aliás, Suzanne foi a personagem que mais me irritou. Achei a menina mimada demais e juro que teve horas em que torci para a autora dar um fim nela. Nela e no Coronel Cavanaugh. (e vocês só vão saber se Merline me atendeu lendo o livro!). 

Enfim, se eu fiquei muito feliz com o convite para a leitura de “A Esposa do Soldado”, eu fiquei encantada após a leitura e profundamente agradecida à Cherish Books por estar trazendo de volta essas autoras maravilhosas e consagradas que eu, assim como várias leitoras da minha geração, consumíamos avidamente nos romances históricos vendidos em bancas na década de 1990. Meninas, não estamos mais órfãs dessas Divas!

Gostou da resenha? Comente, compartilhe e siga nosso blog! 😗

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A Esposa do Soldado
Merline Lovelace
Cherish Books
E-book - 332 páginas
ASIN: B07NF83YPQ




Sinopse:
Determinada a encontrar seu marido desaparecido, Julia Bonneaux e sua filha partem em uma perigosa jornada ao Wyoming. Mas ao chegar ao Forte Laramie, Julia reencontra o Major Andrew Garret, o homem com quem se casara secretamente seis anos atrás, um espião da união, que a traíra e que ela acreditara estar morto. Agora ela precisa de sua ajuda, e Andrew se vê dividido entre o dever e o desejo, entre os mal entendidos do passado e a promessa de um novo começo.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Literatura Estrangeira 2019 #1 - A Grande Solidão - Kristin Hannah

A Grande Solidão foi o segundo livro que li da Kristin Hannah. O primeiro havia sido O Rouxinol, que me marcou profundamente. Então já posso dizer que comecei este com grandes expectativas. E elas foram completamente superadas! Não é a toa que a autora tem mais de 15 milhões de livros vendidos em todo o mundo. Kristin é uma Diva, uma mestra do drama histórico. E com A Grande Solidão não podia ser diferente!

A narrativa começa no ano de 1974, no imediato pós-guerra do Vietnã. Nos Estados Unidos ainda sob o choque da divisão que o conflito deixou no país, sob o impacto do atentado de Munique, do escândalo Watergate e da crise do petróleo. É nesse cenário meio sonolento, meio entorpecido após tantas revoluções, que conhecemos os Allbrights, uma família que tenta sobreviver num mundo para o qual não está nem um pouco preparada. Em todos os sentidos.

A história é contada sob a ótica de Lenora Allbright, ou simplesmente Leni, a filha única do veterano do Vietnã, Ernt, e da delicada e sonhadora Cora. 

Ernt, que era mecânico antes de ser convocado e, posteriormente, capturado na guerra, é um homem doente e desajustado. Vítima do estresse pós-traumático, ele não consegue se fixar em um emprego e com isso vive arrastando a família pelo país, sempre em busca do "lugar ideal". Delirante, psicótico e com mania de perseguição, é dele a ideia de se mudar com a família para o Alasca. 

Aqui eu preciso fazer uma confissão: eu odiei Ernt. No início do livro eu até tentei vê-lo como um homem doente, tentei sentir pena dele. Mas no decorrer da narrativa, conforme o passado dele e de Cora vai sendo revelado, eu perdi toda e qualquer empatia, por mais ínfima que pudesse ser, por ele enquanto ser humano.
"É como se a coluna dele estivesse quebrada. (...)E você não deixa de amar uma pessoa quando ela está machucada. Você fica mais forte para que ela possa se apoiar em você. Ele precisa de mim."
Já Cora é uma mulher de seu tempo. Condescendente com Ernt e seu amor tóxico e doentio, ela foi criada para se casar e ter filhos. É filha de uma família abastada de Seattle e largou o ensino médio para fugir com Ernt para "viver de amor". Mas já no início do livro podemos perceber, numa conversa tensa entre Cora e sua mãe, que o príncipe dela sempre esteve mais para sapo.

Lenora, ou apenas Leni, a protagonista, é uma adolescente de treze anos, tímida, introspectiva e muito ligada à mãe. Muitas vezes Lenora é muito mais madura do que Cora. É através dos olhos dela que acompanhamos a mudança para o Alasca, a aventura e o desatino de Ernt que leva a família toda para Kaneq, uma das cidades mais isoladas daquele estado, para tomar posse da terra que ele recebeu de herança de um falecido companheiro de farda. Despreparado e arrogante, só com muito custo ele aceita a ajuda dos vizinhos para se estabelecer com a mínima segurança em seu novo lar..

No Alasca, além da natureza exuberante e implacável, os Allbrights conhecem também os habitantes locais. Como Marge "Gorda" Birdsall, Tom Walker e seu filho Matthew, e Bo Harlan e seu clã. Todos pessoas extremamente fortes e adaptadas à região, todos perfeitamente construídos pela autora. Cada personagem, até mesmo a natureza inóspita e onipresente do Alasca, tem seu papel nesse drama.

Enquanto é verão, a família cuida de sua cabana e vive dias idílicos sob o Sol que nunca se esconde. Mas, com a aproximação do inverno e a amizade cada vez maior entre Ernt e Bo Harlan, seu vizinho paranoico, o clima começa a pesar na cabana dos Allbright. E quando a escuridão chega é que entendemos porque o livro se chama "A Grande Solidão".
"Uma mulher tem que ser dura como aço por aqui. Não pode contar com ninguém. Você precisa estar disposta a salvar a si mesma. E tem que aprender rápido. No Alasca só se pode cometer um erro Um. O segundo vai te matar."
Depois que li o livro eu entendi as entrelinhas da fala acima, que está, inclusive, impressa na contracapa. No fim de tudo, ela não fala só das condições inóspitas da região. Ela fala sobre o mais primordial instinto de sobrevivência, de só contar consigo quando o pior perigo está dentro de sua casa. De aprender a se esgueirar pelas sombras, a sorrir sem vontade, a se equilibrar na corda bamba emocional. Cora e Leni aprendem com seus erros e de frágeis mulheres da cidade, passam a se integrar perfeitamente com a natureza local. Até que uma nova reviravolta acontece em suas vidas. E depois outra. Preparem seus corações!

A história acompanha a família durante vários anos. E a cada página nos pegamos ansiosas pelo destino de Leni e Cora. Conforme o caráter de Ernt vai se degenerando, tememos pela vida delas e nos deparamos com a dura realidade das mulheres vítimas de violência doméstica naquela época. As dificuldades para se comprovar, a negligência das autoridades, a falta de leis que amparam uma mulher que tenta deixar o companheiro violento.

"A Grande Solidão" é um livro duro, implacável com o leitor, tanto quanto o inverno do Alasca é com os seus habitantes. Embora a autora fale de amor, principalmente do amor materno, ele traz à tona emoções sombrias. Depois que acabei de ler, fiquei numa ressaca literária daquelas. Apesar disso, ou talvez exatamente por isso, tenha se tornado uma das minhas melhores leituras.

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A Grande Solidão
Kristin Hannah
Editora Arqueiro 
Impresso - 400 páginas 
ISBN-10: 9788580418873
ISBN-13: 978-8580418873
ASIN: 8580418879


Sinopse
Atormentado desde que voltou da Guerra do Vietnã, Ernt Allbright decide se mudar com a família para um local isolado no Alasca.
Sua esposa, Cora, é capaz de fazer qualquer coisa pelo homem que ama, inclusive segui-lo até o desconhecido. A filha de 13 anos, Leni, também quer acreditar que a nova terra trará um futuro melhor.
Num primeiro momento, o Alasca parece ser a resposta para tudo. Ali, os longos dias ensolarados e a generosidade dos habitantes locais compensam o despreparo dos Allbrights e os recursos cada vez mais escassos.
Porém, o Alasca não transforma as pessoas, ele apenas revela sua essência. E Ernt precisa enfrentar a escuridão de sua alma, ainda mais sombria que o inverno rigoroso. Em sua pequena cabana coberta de neve, com noites que duram 18 horas, Leni e a mãe percebem a terrível verdade: as ameaças do lado de fora são muito menos assustadoras que o perigo dentro de casa.
A grande solidão é um retrato da fragilidade e da resistência humana. Uma bela e tocante história sobre amor e perda, sobre o instinto de sobrevivência e o aspecto selvagem que habita tanto o homem quanto a natureza.


quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Literatura Estrangeira 2018 #1 - A Irmã da Pérola - Lucinda Riley


A série “As Sete Irmãs” é um daqueles achados literários inesquecíveis. Lembro que comprei o 1º livro da série numa viagem que fiz ao Rio, junto com outros livros. Até então nunca tinha lido nada da Lucinda Riley e não tinha a menor ideia de que estava com ouro em minhas mãos! Apaixonei-me perdidamente pela saga das irmãs D’Aplièse e passei a esperar ansiosamente por cada volume.

Infelizmente na época em que li os primeiros livros eu estava afastada do blog e não fiz resenha deles. Talvez uma hora dessas eu ache vaga entre uma leitura e outra e consiga relê-los para resenhar. Mas, vamos ao que interessa!

Terminei a leitura do quarto livro das Sete Irmãs em 4/11, mas só hoje consegui finalizar e postar a resenha. A Irmã da Pérola conta a história de Celeno D’Aplièse, mais conhecida como Ceci, aquela irmã que era “grudada” com Estrela [spoiller-passe o mouse] e que termina o terceiro livro meio estremecida com ela. [fim do spoiller]

Ceci é, a princípio, a parte energética, ativa e brilhante da dupla de filhas de Pa Salt. Na estranha simbiose que mantém com Estrela, ela nutre a irmã com sua altivez e seu arrojo, ao passo que Estrela supre sua necessidade de afeto e cumpre um papel de “intérprete do mundo” para Ceci, já que ela é disléxica.

Porém, no início do livro Ceci está sem sua metade. Estrela saiu de sua sombra, seguiu seu destino e mudou-se do apartamento que a irmã comprou para elas duas morarem. Magoada e sentindo-se sozinha e sem objetivos, Ceci resolve enfim ir em busca de sua família biológica e descobrir quem é de verdade.

O que sobressai, logo no início do livro, é que Ceci é um caso grave de baixa autoestima. Embora sempre brilhasse mais do que a tímida Estrela, Ceci sempre se sentiu como uma sombra, como alguém deslocada e inadequada não só dentro de sua família, como no mundo de forma geral. Muito disso, acredito, tem a ver com a dislexia e a forma particular de interagir com o mundo que essa doença causa. Para Ceci, a dislexia é um grande fator limitante.

Outro fato que me chamou a atenção durante a leitura são as emoções de Ceci e a forma como elas evoluem ao longo da narrativa. No início suas emoções são planas, lineares, a despeito de toda força (ou em razão de) que ela represa. Mesmo quando ela se envolve com Ace. É como se Ceci visse tudo em tons de cinza e aos poucos, conforme ela vai mergulhando no passado, em suas origens e em suas próprias emoções, as cores e formas passam a sobressair na narrativa, até explodirem junto com as revelações que entrelaçam sua vida à de Kitty Mercer – sua antepassada.

Falando em Kitty, a primeira aparição dela me encantou profundamente. Um personagem forte, marcante, com uma riqueza única. Assim como Ceci, é possível sentir a força de sua vida interior, vibrante e selvagem que ela, filha de um pastor (falso) moralista, tenta reprimir a custo.

Seguindo o padrão da série, a trama se passa em duas épocas diferentes, simultaneamente. Então nós vamos descobrindo, junto com Ceci, a história de sua família, de suas profundas conexões com a Austrália e com a fascinante cultura aborígene bem como sua ligação com a indústria da pérola do início do século XX. Aqui cabe uma observação: a pesquisa de Lucinda Riley para esta série é absolutamente MONUMENTAL. Não sei como ela não enlouqueceu com tantas informações sobre lugares e épocas tão diferentes em cada um dos livros!

Bem, vou ficar por aqui, senão a resenha vira um tratado! Se vocês ainda não leram essa série, corram para fazê-lo! É uma das melhores que conheço no momento. E sem apelações lacrimogêneas ou sexuais. É livro bom MESMO! Mais um que entra para minha lista de favoritos desse ano. Cinco estrelas, sem dúvida!

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Série "As Sete Irmãs" - Lucinda Riley - Editora Arqueiro

  1. As Sete Irmãs: A História de Maya (2014)
  2. A irmã da Tempestade: A História de Ally (2015)
  3. A Irmã da Sombra: A História de Estrela (2016)
  4. A Irmã da Pérola: A História de Ceci (2017)
  5. A Irmã da Lua: A História de Tiggy (2018)

A Irmã da Pérola: A História de Ceci
Lucinda Riley
Editora Arqueiro
Impresso - 528 páginas
ISBN 978-85-8041-773-9



Sinopse:

Em A irmã da pérola, quarto volume da série As Sete Irmãs, duas jovens de séculos diferentes têm seus destinos cruzados numa emocionante história sobre amor, arte e superação.


Ceci D'Aplièse sempre se sentiu um peixe fora d'água. Após a morte do pai adotivo e o distanciamento de sua adorada irmã Estrela, ela de repente se percebe mais sozinha do que nunca. Depois de abandonar a faculdade, decide deixar sua vida sem sentido em Londres e desvendar o mistério por trás de suas origens. As únicas pistas que tem são uma fotografia em preto e branco e o nome de uma das primeiras exploradoras da Austrália, que viveu no país mais de um século antes.



A caminho de Sydney, Ceci faz uma parada no único local em que já se sentiu verdadeiramente em paz consigo mesma: as deslumbrantes praias de Krabi, na Tailândia. Lá, em meio aos mochileiros e aos festejos de fim de ano, conhece o misterioso Ace, um homem tão solitário quanto ela e o primeiro de muitos novos amigos que irão ajudá-la em sua jornada.


Ao chegar às escaldantes planícies australianas, algo dentro de Ceci responde à energia do local. À medida que chega mais perto de descobrir a verdade sobre seus antepassados, ela começa a perceber que afinal talvez seja possível encontrar nesse continente desconhecido aquilo que sempre procurou sem sucesso: a sensação de pertencer a algum lugar.



Nacionais #20 - Sagrados: Poder da Estrela - Anaté Merger

Semana passada terminei mais um livro nacional de uma escritora que já conhecia. Trata-se do segundo livro da trilogia Sagrados, Poder da Estrela, de Anaté Merger.

Anaté é brasileira, mas mora na França há muitos anos. Então já começo dizendo que a ambientação de seus romances, passados na região da Provence, é primorosa! Nós realmente nos sentimos passeando pelas paisagens e locais que ela descreve com muita propriedade.

"Poder da Estrela" continua exatamente de onde o "Aliança de Maria Madalena" parou (resenha aqui). E antes que me perguntem: não dá para ler fora da sequência ou deixar de ler o primeiro. Um livro continua o outro. Ponto.

Neste segundo volume nós ficamos mais íntimos desse universo de Anjos, Demônios, Templários, Anakins, Magas, Feticeiras, entre outros seres e entes místicos. Assim como Diana e Chloé, que descobrem que seus respectivos maridos são muito mais do que até então elas acreditavam serem. Tramas secundárias são reveladas, insurgências e divergências aparecem nos dois grupos antagonistas da trama, novos personagens são apresentados e muitos embates acontecem.

O livro tem um ritmo gostoso, apesar da narrativa em algumas partes ser bem descritiva. A autora é muito detalhista, o que nos insere completamente na trama. Consegui visualizar perfeitamente cada cena.

Lucien Anacara, um dos protagonistas e meu favorito, continua revelando suas facetas e deixando-nos entrever a extensão de seu imenso poder.

O livro todo tem muita ação, mas seu clímax acontece nos capítulos finais, encerrando com um poderoso gancho que nos deixa completamente chocadas e ansiosas pelo próximo volume. Se você gosta de aventuras, enigmas, misticismo e suspense, recomendo a leitura!

Sagrados: Poder da Estrela
Anaté Merger
E-book amazon
386 páginas
ASIN B00YB509FG


terça-feira, 30 de outubro de 2018

Nacionais #19 - Um Beijo Meu - Luciana Klanovicz

Sigo no meu objetivo de explorar a literatura nacional. Desta vez com um conto da Luciana Klanovicz, de quem eu já havia lido o romance histórico "1943" (resenha aqui).

"Um Beijo Meu" faz parte da série "Mulheres e Canções" que, segundo a autora, tem contos "sempre inspirados numa musica e numa mulher como protagonista".

Neste caso a música que dá o tom é "Um Beijo Meu" de Herbert Viana, interpretada por Zizi Possi.

Ambientado nos anos 1990, nos pampas gaúchos, o conto é protagonizado por Carolina, uma jovem estudante apaixonada e apaixonante. Depois de levar uma rasteira da vida, ela resolve tomar as rédeas do próprio destino e se tornar quem ela realmente nasceu para ser: uma mulher plena, livre e feliz.
"Carolina abandonou a cidade como quem abandona a quem ama; uma relação contraditória marcada pelo egoísmo de quem não tem forças (e nem coragem) de renunciar."
Logo de início identifiquei em Carolina a história de muitas de nós mulheres que em alguns, ou vários momentos de nossas vidas, nos anulamos em nome de alguém. Em nome daquilo que, naquele momento de nossas vidas, chamamos de amor.

Eu me vi ainda jovem naquela Carolina do início do livro. Transbordando uma vida interna que grita para se libertar. Insegura, com pouco amor por si mesma, contentando-se com migalhas de afeto. Carolina cresce e se liberta. E nós nos libertamos com ela. Em sua busca ela se permite tomar uma decisão corajosa. E numa cena belíssima rompe definitivamente com o passado.

O texto de Luciana é muito agradável de ser lido. O ritmo é rápido e não deixa espaço para excessos. É tudo bem amarrado. No entanto, traz em cada linha muito lirismo. Fazendo jus ao nome da série, ele encanta como um doce musical, evidenciando a intimidade da autora com esse universo já que, além de escritora, Luciana também é cantora.
"Mal amanhecia e Carolina vestia sua calça vermelha e seu casaco, como cantava Gal Costa em Vapor Barato. Era preciso ir embora."
O conto é cativante e me deixou com vontade se conhecer os outros da série. Recomendo MUITO a leitura!


Um Beijo Meu
Luciana Klanovicz
E-book Amazon 

65 páginas
ASIN B07F5RF6BK



sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Nacionais #18 - A Noiva da Estrada e outros contos - Fabiano Jucá


Minha leitura desta vez foi num gênero diferente: contos de terror! Embora não seja minha praia, foi ótimo sair da minha zona de conforto literária. E com um texto tão agradável quanto o do Fabiano Jucá. 

São três contos no livro, sendo que o primeiro e o segundo se complementam. O terceiro é totalmente independente e, na minha opinião, ficou um pouco deslocado dos outros.

Em “A Noiva da Estrada” temos um jovem professor de filosofia que vai trabalhar no interior e acaba encontrando uma estranha moça na estrada. Aqui temos o autor bebendo na fonte dos “causos” e das lendas urbanas brasileiras. Com uma opção narrativa pela terceira pessoa, tem pitadas de ironia e humor mordaz, principalmente quando a voz do narrador se contrapõe às atitudes de Alex, o protagonista dos dois primeiros contos.


"A família é uma fábrica de neuroses, e manter a sanidade é o grande desafio."

Em alguns pontos a narrativa ficou um pouco confusa, saltando entre passado e presente num mesmo parágrafo sem, no entanto, comprometer o entendimento. Só pede mais atenção.

No segundo conto, “Cidade Fantasma”, temos novamente Alex envolvido com o sobrenatural. Este conto tem a narrativa mais densa do que o primeiro, menos bem-humorado e mais mergulhado nos dilemas internos de Alex. Eu diria que ele está mais para um terror psicológico. Aliás, durante todo o conto eu imaginei que estava dentro de um surto esquizofrênico do Alex. O desfecho, porém, foi diferente do que eu supus.

O terceiro conto, “A Caixa do Mal” é narrado em primeira pessoa pelo protagonista, um sujeito que sofre de fobia a elevador. Embora bem escrito, não chegou a me conquistar. No início da narrativa me fez lembrar um pouco dos contos de Pöe, mas depois ele foi ficando um pouco monótono.

O livro foi um bom entretenimento e me ajudou a conhecer um novo e bom autor brasileiro. Vale a leitura!

A Noiva da Estrada e outros contos
Fabiano Jucá
E-book Amazon
46 páginas
ASIN B0150YIV38

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

De graça é mais gostoso?


Será? Embora eu esteja bem entusiasmada com o lançamento do quarto livro da minha saga Radegund, também ando bem chateada com umas coisas que ando vendo por este mundo literário afora.

Vocês sabem que eu não gosto de treta. Fujo delas, MESMO. Mas chega um momento em que o saco (que eu sequer tenho) enche. Em mais de dez anos nessa estrada literária eu ainda estou aqui falado sobre a valorização do autor nacional. Cara, são DEZ anos tendo que bater na mesma tecla! DEZ anos tendo que explicar pra quem NÃO QUER entender que a obra intelectual É SIM UM PRODUTO e como tal tem seu valor determinado pelo esforço e pelo investimento que o autor faz para criar um livro.

Vejam bem que não falei em PUBLICAR (ainda). Falei em CRIAR! Porque, ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, desenvolver um livro com um mínimo de qualidade requer investimento FINANCEIRO. Esqueça essa história de que basta uma ideia na cabeça e uma caneta nas mãos. ES-QUE-ÇA. Isso serve para quem quer escrever um diário. Para quem almeja se profissionalizar e vender seus livros, seja em formato físico ou digital, o investimento é grande e a estrada longa. Duvida? Vou te falar sobre o meu trabalho.

Comecei a esboçar a saga de Radegund por volta de 2005/2006. ESBOÇAR. Por se tratarem de romances históricos, precisei pesquisar muito. Na foto aí embaixo vocês podem ver uma parte do meu acervo de pesquisa. Tem outros livros, que ainda estão guardados em caixas porque aqui no AP ainda não consegui espaço para eles. Tem também cerca de 10 pastas de artigos garimpados em diversas fontes, catalogados por assuntos, que não aparecem aqui. Tem uma pasta de arquivos no PC, com mais de 200 artigos, teses e ensaios. E mais sei lá quantos artigos salvos no Evernote. Desse acervo, virtual e físico, 70% foi material comprado. Os outros 30% foram disponibilizados de forma gratuita pelos autores. Vejam que até agora só falei do investimento FINANCEIRO, não toquei no investimento de tempo, intelectual ou emocional, que também fazem parte do custo de produção da obra. E até aqui só falei do investimento inerente ao processo de CRIAÇÃO.

Somente um dos periódicos que assino custa hoje € 32,95 por ano (6 edições). Outro custa $59,99 por ano (12 edições). Ambos digitais. Do acervo na foto, apenas um volume de “A Guerra de Deus” sai hoje a R$ 90,00 na Amazon (preço promocional). Nem vou falar dos outros.

Uma parte do meu acervo de pesquisa.

“Ain, Drica! Fica botando preço das coisas pra se exibir...”

Não, pessoa. Estou simplesmente desenhando para ver se me entendem. Porque, convenhamos, hoje em dia existe uma dificuldade em abstrair e entender a realidade através de conceitos. Então, a gente esfrega a realidade na cara da sociedade.

Se até aqui não ficou claro o volume de investimento que uma obra bem trabalhada pede, vamos falar do capricho na publicação. Uma boa imagem num banco custa hoje, em média, R$ 120, 00. Se duvidam, deem uma pesquisada na iStock, na Shutterstock e na Fotolia, onde compro as imagens das minhas capas.

“Ah, mas tem banco de imagem mais barato! Ou grátis.”

Tem sim. No mais barato você pode levar uma pernada e acabar com uma imagem que não é licenciada (já passei por isso.) Em bancos gratuitos você raramente vai conseguir qualidade ou uma imagem que realmente comunique aquilo que seu livro transmite.

Além do banco de imagem, temos o registro da obra. Por meios on-line fica em torno de R$ 20,00. Na Biblioteca Nacional fica em R$ 20, 00, mais o custo de impressão, Correios e uma espera que pode chegar a 1 ano para o registro sair. ISBN? R$ 270,00 só para cadastramento. Diagramação de e-book, criação de capa e ficha catalográfica? Ponha aí uns R$ 500 a R$ 1000,00, dependendo do profissional e da complexidade do trabalho. E até aqui eu só falei de E-BOOK, minha gente. Perceberam aonde eu quero chegar?

O livro é uma OBRA INTELECTUAL, é ARTE E é UM PRODUTO. E como tal tem seu CUSTO DE PRODUÇÃO, além de seu VALOR AGREGADO. Independentemente de ser em formato FÍSICO ou E-BOOK.

Achar que um e-book deveria ser distribuído de graça, em PDF ou vendido por um “valor simbólico”, como vejo muita gente pregando por aí, é uma afronta ao trabalho do escritor. É não me venham com aquele chororô de que o autor tem que distribuir sua obra de graça para se tornar conhecido, para o público saber se gosta dele. Sério? Vão se catar! Por acaso você entra na manicure, diz que quer fazer as unhas, mas só vai pagar se gostar? Ou vai ao mercado, leva um quilo de carne e diz pro caixa que se ficar do seu gosto você deixa um like? Sério?

Na loja Kindle temos e-books que custam muito pouco. A faixa de preço de e-books nacionais, mesmo aqueles lançados por selos editoriais mais tradicionais, dificilmente ultrapassam a casa dos R30,00. Se o autor for exclusivo da Amazon, e se os royalties dos e-books forem 100% dele, de cada e-book vendido a R$ 10,00, por exemplo, ele vai ficar com R$ 6,94 (categoria de royalties 70%, descontada a taxa que a Amazon cobra a título de entrega, que fica em R$ 0,06). Caso o autor consiga vender 1 e-book por dia, ele vai apurar no final de 30 dias R$ 208,20. Que serão creditados para ele em aproximadamente 60 dias. Ou seja, aproximadamente 21,82% de um salário mínimo vigente para um mês de trabalho (para vender 1 e-book/dia calculo que precise de umas 5 horas de trabalho/dia) e investimento em divulgação (links patrocinados, marcadores, eventos e afins). Esses são cálculos bem grosseiros, baseados em observação e experiência pessoal. Mas que dão uma noção mínima do quanto CUSTA um “simples” e-book que, segundo os profissionais do Achismo Avançado Aplicado I, deveria ser de graça e ser distribuído em PDF!

Eu poderia listar aqui mais uma série de argumentos, desenhar e provar por A+B que os e-books nacionais, principalmente, são mais baratos do que um chiclete, e ainda assim vai ter gente defendendo o roubo da propriedade intelectual como forma de “divulgação”. Para esses eu só digo: melhorem. O que essas pessoas costumam querer é o doce sabor de levar uma vantagenzinha de merda sobre alguém. É se ocultar atrás da tela de seu PC ou celular e esfregar as mãozinhas porque está fazendo uma coisa escondida. A maioria baixa e nem lê. Mesmo quando o autor oferece um e-book de graça na Amazon, essas pessoas apenas os acumulam em seus dispositivos. Não dão retorno algum sobre a obra que tão gentilmente lhes foi cedida. O que essas pessoas geralmente desejam é continuar levando vantagem nessas coisas pequeninas, ignorando que por trás de cada linha de um livro, existe anos de trabalho e investimento de alguém.

Só sei que, na próxima vez que me pedirem e-book de graça, vou perguntar qual a profissão dessa pessoa. O que ela faz para viver. Quem sabe ela não trabalha de graça pra mim, só pela divulgação.

Drica Bitarello.

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