Prateleiras

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Clarice Vai ao Teatro

Apaixonante. Intrigante. Bela. Assustadora. Fantástica. Um mistério até para si mesma, conforme se descrevia. Assim era Clarice Lispector, nascida Haia numa cidadezinha da Ucrânia chamada Chechelnik, enquanto a família fugia da Rússia e da fúria da Revolução.
Escritora desde que aprendeu a ler, Clarice publicou seu primeiro livro aos 19 anos, "Perto do Coração Selvagem" e desde então vem surpreendendo sucessivas gerações de leitores com sua escrita atemporal.
Eles queriam fruir o proibido. Queriam elogiar a vida e não queriam a dor que é necessária para se viver, para se sentir e para amar. Eles queriam sentir a imortalidade terrífica. Pois o proibido é sempre o melhor. Eles ao mesmo tempo não se incomodavam de talvez cair no enorme buraco da morte. E a vida só lhes era preciosa quando gritavam e gemiam. Sentir a força do ódio era o que eles melhor queriam. Eu me chamo povo, pensavam.”(Clarice Lispector)

"De Ulisses ela aprendera a ter coragem de ter fé – muita coragem, fé em quê? Na própria fé, que a fé pode ser um grande susto, pode significar cair no abismo, Lóri tinha medo de cair no abismo e segurava-se numa das mãos de Ulissses enquanto a outra mão de Ulisses empurrava-a para o abismo - em breve ela teria que soltar a mão menos forte do que a que a empurrava, e cair, a vida não é de se brincar porque em pleno dia se morre. A mais premente necessidade de um ser humano era tornar-se um ser Humano." (Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres)
Beth em cena no Theatro Central - JF
Hoje tive o prazer de "ver" Clarice no palco do Theatro Central, aqui em JF, magnificamente personificada por Beth Goulart no monólogo "Simplesmente Eu, Clarice Lispector".
Escrita e dirigida pela atriz, que interpreta a autora e quatro de suas personagens, - Joana, de "Perto do Coração Selvagem"; Ana, do conto "Amor"; Lóri, de "Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres"; e uma outra mulher sem nome, do conto "Perdoando Deus" - a peça é uma viagem ao fundo da alma de Clarice Lispector e de nós mesmos.
Construído sobre os textos da escritora, - contos, poemas, cartas e entrevistas - o monólogo é vibrante de emoções, que vão da esfuziante alegria a mais profunda depressão. Beth Goulart dá um show de interpretação, não permite nenhum momento de cansaço ou tédio (eu mal vi o tempo passar!) e prova o porquê de ter arrebatado o Prêmio Shell de Melhor Atriz com a peça.
Se a peça for a sua cidade, NÃO PERCA!


BJS da Drica ;-)

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