Prateleiras

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

De Joelhos - Ann-Marie MacDonald

Não se conhece um livro pela capa. Tão pouco pelo preço, pela fama, nem mesmo pelo lugar onde você o encontra. “De Joelhos” se encaixa em todas estas categorias. Em todos os sentidos. A capa é sem graça, o livro é basicamente um ilustre desconhecido – e sua autora idem – e eu o encontrei num feira de livros de um hipermercado (leia-se: “estamos nos desfazendo do encalhe”) por míseros R$ 7,00. (Isso mesmo! SETE REAIS por 543 páginas de BOA Literatura). 
"De joelhos" não é uma leitura fácil. E também não tem vampiros e lobisomens adolescentes, bruxos simpáticos em idade escolar, anjos perdidos na Terra, conspirações seculares ocultas em obras de arte famosas, nem uma brilhante campanha de marketing, dentre outros ingredientes que tornam um livro O queridinho da mídia. Romance de estreia da atriz e autora teatral Ann-Marie MacDonald, foi publicado no Canadá em 1996, mas chegou ao Brasil apenas em 2001, pela Record, sem muito alarde. Porém, apesar da discrição de seu lançamento, na contra capa há um trecho da crítica do Sunday Telegraph que diz “Parece quase injusto que ela tenha escrito um primeiro romance tão brilhante.”, como a nos avisar de que temos nas mãos material de primeira. E é verdade!
O livro é enorme, complexo e cuidadosamente urdido. Conta a história de James Piper, um jovem de ascendência gaélica cujas origens humildes impulsionam uma grande ambição. A rudeza da jornada de James contrasta com a sutileza de sua profissão: afinador de pianos. E é através desta mesma profissão que ele conhece a jovem Materia Mahmoud, filha de prósperos comerciantes libaneses radicados em Cape Breton Island, na província da Nova Escócia, Canadá. A partir deste ponto tem início uma saga de proporções épicas, que conta a história da família Piper, e de suas filhas – Kathleen, Frances, Mercedes e Lily.
Cheio de recursos teatrais, cortes bruscos e flashbacks, “De Joelhos” faz com que viajemos do fim do século XIX até meados do século XX. O texto atravessa, inexorável, a crueza da Primeira Guerra e suas trincheiras enlameadas, que cheiram a morte e pólvora. Conduz-nos pelo ensaio da Grande Depressão, que não causa tanto alarde no desolado vilarejo dos Piper, que já parece ter nascido com os matizes cinzentos de 1929. Leva-nos a uma viagem pelas destilarias clandestinas em plena Lei Seca, por prostíbulos imundos e sórdidos onde os mineiros, os vagabundos e toda sorte de desafortunados paga para beber “o veneno”. E também pela Nova York dos loucos anos 20, pelos clubes noturnos onde o jazz e o blues nasciam, sob os aristocráticos narizes da elite branca, como música de “gente de cor”. 
Neste universo vibrante, as irmãs Piper vivem uma saga que junta amor, ódio, culpa, sexo, incesto, alcoolismo, suicídio e assassinato como se fosse uma sinfonia, perfeitamente orquestrada pela autora. Cheio de ação, o livro é entremeado por períodos de calmaria, que dão a falsa impressão de que o enredo “cansou”, ou que entrou numa fase em que nada está acontecendo. Porém, as verdades da trama estão ali, aparecendo de vez em quando, botando o nariz para fora da cortina de acontecimentos que Ann-Marie criou. E no final, quando ela junta todas as peças do quebra-cabeças, é que o leitor pensa naquela cena, 200, 300 páginas atrás, e diz para si mesmo: “Ora, não é que estava mesmo tudo ali?”
Agarre este livro quando ele cair em suas mãos e leia-o. É inesquecível. E quando chegar ao final dele, uma dica: feche-o, dê uma volta, e depois abra-o e leia o Prólogo novamente. Você vai entender o porquê de eu acha-lo genial.

FICHA TÉCNICA:
De Joelhos
Autora: Ann-Marie MacDonald
Título Original: Fall On Your Knees, 1996, Canadá
Tradução: Maria de Lourdes Menegale
ISBN-10: 8501050776 

Record, 2001

543 páginas
SINOPSE: Por meio de recortes e flashbacks a autora apresenta a saga de quatro gerações de uma família que migra para o Canadá. O leitor passeia pela sangrenta Primeira Guerra Mundial, pela Depressão e a Leia Seca, e conhece a história de quatro irmãs, filhas de um afinador de piano escocês. A culpa, o pecado, a violência e a repressão escondida sobre uma fina camada d equilíbrio familiar vêm à tona em uma prosa densa e poética.

5 comentários:

romancesinpink.com.br disse...

Nossa! Resenha maravilhosa. Acredite, se eu encontrar esse livro por aí, vou comprá-lo.
bjokas

Drica Bitarello disse...

Tonks, compre mesmo, vale a pena. Eu já vi este livro nas lojas Americanas e também no Carrefour por 12,00. Aproveita enquanto não descobrem o quanto é bom e aumentam o preço, kkkkk
BJS

Leninha - sempre romantica disse...

Nossa Drica, com essa resenha dá mais que vontade de ler, dá coceira, kkk
Parabéns, você acaba de me deixar louca por mais um livro, obrigada!
Anotado na lista, adorei!
beijão!

paros28 disse...

Nossa que dica, muito obrigada pela resenha, foi bem esclarecedora, agora vou ter que em busca urgente desse livro.

Já está na lista de leitura.

Obrigada novamente pela resenha

Drica Bitarello disse...

Leninha e paros28, obrigada pela visita e pelos elogios. A resenha é a pura expressão do que senti lendo este livro. Aliás, se fosse falar tudo MESMO, teria que fazer uma resenha com vários capítulos!