Prateleiras

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Opinião: Literatura não tem dono

A revista Época publicou um artigo em 18/06/2011, na seção "Mente Aberta" intituado "Os Donos do Português". A frase de abertura do artigo já deu o tom: "Por que a nova geração de autores de Portugal faz livros de ficção tão melhores que os brasileiro". Inicialmente, isso me fez pensar se a Época estaria precisando aumentar suas vendas no mercado português. (será???)
Concordo que há excelentes autores por lá (e também há péssimos por aqui). Mas, para fazer valer esta afirmativa, não haveria necessidade de desmerecer os autores nacionais. A luta para publicar no Brasil já é insana. Levamos anos para conseguir fincar o pé no mercado editorial, e só nós sabemos o quanto de tempo e investimento os autores tem que fazer para competir com a massificação das grandes. A maior parte dos representantes da Nova Literatura ralou (e ainda rala um bocado), e tirou muito dinheiro do próprio bolso para investir em suas obras. Isso depois de terem muitas portas batidas na cara e de terem ouvido muitos "nãos" de agentes e editoras que se consideram os supra-sumos no assunto. E que, naturalmente, não leram uma linha do que esses autores escreveram. Isso é FATO. Estou mentindo?
E sim, é óbvio que a Literatura produzida aqui é totalmente diferente da que é produzida por lá. Países, realidades, cultura, contextos, formações, indivíduos... são todos completamente diferentes! E se as obras que produzimos são fruto exatamente dessa amálgama, como comparar aquilo que é incomparável, único?  E se mesmo com todos os problemas e defeitos daqui, ainda conseguimos dar o tom de leveza, ou de elogio, como foi dito no artigo, ao nosso país, é porque talvez nós tenhamos um tantinho mais de senso de humor do que nossos colegas portugueses. Ou será que toda "boa literatura" é só aquela em que o autor acha o mundo um lixo, o sistema uma bosta e faz o protagonista depressivo cortar os pulsos antes da página 10? 
Além disso, não vejo qual o problema de os autores brasileiros se ajudarem mutuamente. O articulista - bem como seus "entrevistados" - deveria ter refletido sobre as razões desta união. É dela que surgiram movimentos como o Novas Letras e o Autoras Brasileiras. É através desta união e do incentivo mútuo que a Nova Literatura Brasileira vem ampliando seu território, independente dos grandes e tradicionais selos. (que só se interessam, na maioria das vezes, em replicar aqui o que já é sucesso lá fora). E se o "panorama português" é "mais ácido", isso não significa que o daqui seja menos crítico. No entanto, entre os grupos de escritores da nova geração, existe o hábito da crítica construtiva, da discussão das obras e da melhoria constante do padrão de cada uma delas. Partimos do pressuposto que, melhorando a qualidade global da Literatura Nacional, melhoramos o NOSSO mercado, o NOSSO espaço. A diferença maior entre o e o é que, enquanto lá o foco é a competição, aqui é a cooperação. 
No final do artigo fui entendendo que, o ponto crucial da discussão não é exatamente a qualidade da literatura portuguesa. Trata-se, simplesmente, de uma corrida para saber quem vai ocupar o vácuo deixado por Saramago, quem será o seu "sucessor". Quer saber? Acho que o melhor é cada um ocupar o seu espaço, o seu próprio lugar. Saramago teve o dele, e vai ser sempre dele. Quanto ao vácuo, ele tende a engolir tudo ao seu redor. E depois não sobra nada.

3 comentários:

Mr-X disse...

Drica no fundo sabe o que é o mais legal, nem me importo com o que os caras escrevem lá em Portugal, detesto os "best sellers", por que só vendem exatamente por que disseram que eram BS!
Gostei da sua Análise/Crítica do artigo e o desabafo.
Eu respeito o Saramago, no entanto o meu foco é o Stephen King rs É ele quem devo superar.
Vamos sempre nos ajudando e nos divulgando, quando eu encontro pessoas competentes em quaisquer área, tenho prazer em divulgar o trabalho para o maior numero de pessoas que eu conseguir. Você é uma delas.

Deixo aqui um grande Abraço

Atenciosamente

James Stone Garden @homemespacial
(músico, escritor e operador de telemarketing rs)

Drica Bitarello disse...

James, obrigada pelo comentário. Assim como você, minha referência não é o Saramago, embora eu o admire. E Best Sellers, em muitos casos, são muito mais fruto de uma boa estratégia de marketing do que propriamente sinônimo de qualidade.
Agora, sabe o que é mais estranho nisso tudo? O silêncio dos autores nacionais...

Junior Menezes disse...

Excelênte postagem!!! Olha, na minha opinião, a revista Época deveria, ao invés de fazer comparações absurdas, como esta, expor a luta diária e sofrida que nós autores brasileiros fazemos todos os dias... Mendigando espaços em blogs, comprando os nossos próprios livros para podermos divulgá-los, recebemos críticas de pessoas que querem nos fazer desistir... Eles deveriam nos ajudar!!! Se aqui existem autores ruins em Portugal e em qualquer lugar do mundo também existe!!! Por exemplo, o vampirismo assola o mundo literário atualmente, inclusive muitos livros descaracterizaram a real identidade dos vampiros... Exibindo eles como galãs ou criaturas boazinhas... E mesmo assim tais livros vendem aos milhares pelo mundo a fora!!! No meu caso, detesto livros sobre vampiros e terror!!! Mas, isso me dá o direito de dizer que os autores desses generos são melhores ou piores do que outros??? Claro que não. Cada um tem seu publico!!! O que deveria ser discutido é a falta de oportunidade para nós autores e a busca por meios que nos ajudassem a tirar dos nossos trabalhos a sobrevivência e o reconhecimento que nos é devido. NOTA - QUE 0 PARA A REVISTA ÉPOCA!!!