Prateleiras

quinta-feira, 10 de março de 2011

Amante Revelado - JR Ward

Eu posso compreender porque algumas pessoas acharam que "Amante Revelado" era o livro mais fraco da IAN. Depois da intensidade de Zsadist, que foi o ponto máximo (até agora) da saga, Butch chega com seus conflitos muito humanos. Naturalmente, a situação criada no início do livro - e que culmina com a surpreendente revelação das origens e do destino do corajoso ex-policial - não tem nada de humana. E embora constituísse uma tentação para qualquer escritor, mais uma vez a autora resistiu em usar uma situação-chave como o único e principal conflito do livro, a exemplo do que já havia feito em "Amante Eterno" (veja a resenha AQUI). E se "Amante Desperto" constituiu uma verdadeira catarse na vida de toda a Irmandade, "Amante Revelado" se impõe, a meu ver, como o fim de um ato. Este "rito de passagem" de Butch abre infinitas perspectivas para a série e tira, definitivamente, o detetive do papel coadjuvante, equiparando-o aos outros Irmãos. Apesar disso tudo, JR Ward nos brindou com um "retorno a humanidade" ao conduzir o romance de Butch e Marissa. 
A antiga prometida de Wrath aparecia praticamente como uma intrusa desde o primeiro livro. Aristocrata da ponta das presas aos dedos dos pés, a vampira, que até então havia ficado naquela espécie de limbo onde moram os personagens secundários, ressurge no início do livro. Sua aparição se dá logo depois da primeira cena, aquela em que Butch é apresentado em todo o esplendor de sua amargura e decadência. O contraste que a autora criou entre os dois ambientes - o ZeroSum e o baile da Glymera - é gritante, embora fique claro a cada linha que, no fundo, Butch e Marissa são iguais e nasceram um para o outro. Por trás da refinada máscara da fêmea existe uma mulher solitária, carente e que, tal qual o detetive, não consegue se encaixar em seu próprio mundo. Afinal, depois de perder sua principal "função" na sociedade, que era a de ser a prometida do Rei Cego, o que mais lhe restava? Relegada ao ostracismo social, e vista como uma espécie de refugo por seus pares da aristocracia, ela apenas sobrevive, sem verdadeiramente existir. Destaque para o fim desta cena, quando Marissa tem uma crise de pânico. Timming perfeito, descrição idem. Palavra de quem tem experiência pessoal no assunto.
Em muitos momentos os papéis parecem se inverter, com Marissa se mostrando muito mais humana do que o próprio Butch. Talvez por isso a personagem tenha recebido críticas negativas de algumas leitoras, que acabaram por considerá-la chata, enjoada e irritante. No entanto, seus conflitos são legítimos e perfeitamente justificados. E as mudanças que vão ocorrendo a cada capítulo revelam que, apesar de ter vivido numa redoma a vida inteira, Marissa é sim uma fêmea forte, digna de ser a shellan de um dos Irmãos.
Neste livro existe também outra espécie de conflito, que talvez tenha mexido um bocado com os leitores, embora poucos toquem no assunto. É a relação de Butch com Vishous. Fazendo mais do que simplesmente fomentar uma polêmica, a autora criou uma linha narrativa altamente delicada e sensível ao abordar o profundo amor entre os dois que, muitas vezes, beira o desejo carnal. Opa! Espere aí! Quer dizer então que o V. é gay? Hum, eu diria que não.
Apesar de ter alguns trechos que soam meio "chocantes", o que eu percebi nessa relação entre Butch e Vishous foi uma intensa amizade, um amor absoluto e uma lealdade plena. Uma coisa que transcende o corpo e os desejos comuns, conectando os dois de forma praticamente simbiótica. Essa forte ligação é explicada ao longo do livro. E a cada cena ela fica mais clara, ao ponto de V. "desejar os desejos" de Butch, por assim dizer. É, fica meio complicado explicar sem fazer spoiller. Leia que você vai me entender.
De qualquer forma, eu achei corajosa e riquíssima a exploração dessa nuance no texto, pois é a culminância da prontidão, da lealdade, dos laços que unem os Irmãos, como se, no fim das contas, eles todos fossem apenas UM.
No mais, temos ótimas cenas de ação, diálogos muito bem construídos, uma maior participação das shellans da Irmandade (yes, esse é o livro das garotas, irmã!) e uma inteligente "saída de cena" de Z., que talvez tenha sido um recurso usado pela autora para que os resquícios da história dele não ofuscassem o brilho de Butch e Marissa.
Mais uma vez é preciso prestar atenção aos detalhes. Os acontecimentos dos livros anteriores são citados diversas vezes. Alguns mistérios são revelados, a Virgem Escriba se torna mais presente, personagens secundários se tornam mais importantes, o futuro da Irmandade começa a se delinear e as linhas mestras que conduzirão a história de V. são traçadas. O livro é intenso, provocante e cativante, prendendo do início ao fim. E se alguém achava que a autora iria deixar a peteca cair, estava enganado. A coisa fica melhor a cada novo título da IAN. Não é a toa que JR Ward é um verdadeiro fenômeno mundial.

FICHA TÉCNICA:
Amante Revelado
“Love Revealed"
JR Ward
2007, NAL Signet
2010, Universo dos Livros
493 páginas
Média de preço: R$ 40,00