Prateleiras

domingo, 25 de março de 2012

Moda + Literatura = Clutch-livro!


Se você é fashionista e fã de literatura, com certeza vai amar! Ou se você nunca tocou em um livro (risos), mas ama moda, é possível que se apaixone também, pois não há como não se render a essas coisinhas fofas... Estamos falando da nova sensação no quesito acessórios-fashion: as bolsinhas-livro ou, simplesmente, clutches-livro.
É provável que a tendência tenha começado com a designer francesa Olympia Le-Tane suas adoráveis criações feitas à mão. O mundo fashion passou a cultuá-las desde que a atriz Natalie Portman apareceu usando sua Lolita by Olympia Le-Tan naprémière do filme Cisne Negro, no final de 2010. Desde então, a tendência foi crescendo, e outras marcas passaram a fazer novas versões da charmosa clutch, comoChanel, Kate Spade, ASOS e, mais recentemente, a brasileira New Order.
No passado, apenas os privilegiados tinha acesso aos livros. Hoje, ainda bem, a Literatura é para todos! Basta saber ler e, claro, ter vontade de ler. Mesmo que não se tenha dinheiro para comprar os últimos lançamentos, é possível conseguir livros mais baratos em sebos, pegá-los emprestados em bibliotecas ou, até mesmo, lê-los de graça pela internet. No entanto, são poucas as que têm acesso aos meigos livrinhos deOlympia Le-Tan (snif). Podemos dizer que a designer faz uma espécie de Alta-Costura da Literatura. rsrs É que suas clutches costumam custar, em média, 1.400 dólares. Além disso, os acessórios não são produzidos em série. Cada modelo de clutch ganha, apenas, 16 reproduções, pois são todas feitas à mão (dêem só uma olhada nos lindos bordados), e, portanto, demandam muito tempo e trabalho. As bolsinhas costumam reproduzir capas originais de grandes clássicos da literatura, como, Lolita, Dracula, O Grande Gatsby, A Divina Comédia, O Apanhador no Campo de Centeio, e por aí vai.

E vocês, o que acham dessa combinação do mundo fashion com a literatura? Tem futuro? Você usaria uma dessas clutches?


domingo, 19 de fevereiro de 2012

Link: O País dos Intelectuais Mal Pagos

Fonte: Diário de Cuiabá

Um ponto de vista muito particular e fundamentado sobre literatura, seus aspectos, valores e implicações em outras áreas

Floriano Martins*
Especial para o Diário de Cuiabá

Luís Eustáquio Soares (1966) tem um curioso livro de ensaios. Chama-se América Latina, literatura e política. É duplamente curioso, seja pela presença do tema “América Latina” saltando da pluma de um intelectual brasileiro, seja pela conexão que estabelece entre literatura e política. Luís Eustáquio Soares é professor de Teoria da Literatura e Literaturas de Língua Portuguesa do Departamento de Línguas e Letras da Universidade Federal do Espírito Santo. É autor de Cor vadia (poesia, 2002), Silvo de Luís Caixeiro (romance, co-autoria com Wilmar Silva), José Lezama Lima: anacronia, lepra barroco e utopia (Teoria, 2008), e El evangelio según satanás (Editorial El Perro y la Rana, Venezuela, 2009). A conexão que fundamenta entre política e literatura é o tema de maior presença neste nosso diálogo, por um motivo essencial: ao separar as duas áreas de pensamento, influímos em uma ação distorcida, cabendo, em termos claros, a parte dos resmungos à literatura, e à política os benefícios da distorção. Essa equação satânica gera uma dupla deformação, que aqui tratamos de ambientar. 

Floriano Martins: Comecemos pelo princípio, aquele ponto em que as relações entre literaturas de línguas portuguesa e espanhola em nosso continente despertam o teu interesse como pesquisador e ensaísta. 

LUÍS EUSTÁQUIO SOARES: Em Kafka: por uma literatura menor, Gilles Deleuze e Félix Guattari assim definem uma literatura menor: 1. Uma literatura menor desterritorializa uma grande língua literária, logo desterritorializa os fascismos existentes nos cânones, nas padronizadas e prestigiosas referências teóricas e práticas em relação àquilo que, numa dada circunstância histórica, consideramos ser boa literatura; 2. Ela, a literatura menor, é sempre um caso Político, com P maiúsculo, destaco; 3. Por ser sempre um caso Político, a literatura menor nunca é individual, logo nunca é europeia, latino-americana, africana, negra, feminina, homossexual, pois detém a potência de traduzir o que não é europeu no europeu, o que não é latino-americano no latino-americano, o que não é negro no negro, o que não é feminino no feminino, porque menor é a literatura que não se define, sob ponto de vista algum, de vez que é europeia, sendo latino-americana, africana, ao mesmo tempo em que é negra, sendo feminina, sendo homoerótica, sendo outra de outra, polifônica, de modo que nunca é ela mesma, por ela mesma. 
Sua marca, portanto, advém da potência expressiva de inscrever-se em outras marcas, sem cessar. 
É por isso que, no mesmo livro, Deleuze e Guattari dizem que a literatura é uma questão de povo, porque o povo é a terra de ninguém; de todas as multiplicidades não padronizadas e nem padronizantes. 
Arriscaria a dizer, sob esse ponto de vista, que toda literatura, que mereça realmente esse nome, literatura, é menor, não canônica, não referencial, singular e múltipla, de todos e de ninguém, residindo aí a relação instigante entre literatura e democracia. 
Literatura é demos sem cracia; demos sem poder. 
Meu interesse pelas literaturas de língua portuguesa e espanhola, portanto, é igualmente menor, porque penso que potência menor da literatura latino-americana consiste em sua expressiva questão de povo, que só é devir democrático quando desterritorializa todos os cânones e, sobretudo, os linguísticos, logo o da língua portuguesa e espanhola. 
Interesso-me, assim, pela literatura latino-americana que não seja nem em língua portuguesa e nem em língua espanhola, de vez que sua potência literária, como questão de povo, advém da desterritorialização do espanhol e do português como línguas imperiais. 
Penso, com Deleuze e Guattari, que toda literatura, sendo questão de povo, é também uma questão Política, de polis, de multiplicidades em dissensos. Eis porque tendemos a confundir literatura com beletrismo, sobretudo sob o ponto de vista teórico. 

FM: Mas aqui poderíamos pensar em exemplos, naturalmente sem correr o risco de tornar canônico o não canônico. Autores esquecidos nem sempre o são por injustiça literária, por vezes o motivo aponta na direção da qualidade da obra. Como tatear, no escuro – o leitor impedido, por um manto opressor que o cobre desde a educação infantil –, a distinção vital entre ambas circunstâncias? 

LES: Em Sobre o conceito de História, gosto especialmente quando Walter Benjamin diz: ”Na tradição do oprimido, que é a que vivemos, o estado de exceção é regra geral. Precisamos produzir um conceito de história que corresponda a essa tradição.” 
Diria que precisamos igualmente produzir uma historiografia literária que parta do ponto de vista da tradição do oprimido, que é regra geral. É aí no horizonte da tradição do oprimido que a inovação literária se torna por excelência uma questão de povo e é aí, portanto, que leitor e produção criativa estão ambos tomados por um manto opressor que nos rapta desde antes de nascer, razão pela qual nascemos velhos, milenares, uma vez que a tradição do oprimido é milenar, trans-histórica. 
A criação que inova é a que se contrapõe à tradição do oprimido, lançando, ainda que isoladamente, a possibilidade utópica de uma destradição do oprimido ou uma tradição de desoprimidos, escrevendo o verbo rebento, aí sim, nascido agora, jovial, atrevido, de infinitas possibilidades de mundos, logo de leitores. Esse tipo de criação traz a multidão em si e tende a ser ignorada, acusada de inconsistente, sem qualidade, ou hermética, porque todos tendemos a nos valer dos vetustos referenciais da tradição do oprimido, razão pela qual muitas vezes não compreendemos a alteridade, a estranheza, da criação instigada pela destradição dos desoprimidos. 
São quase que infinitos os casos de criação literária na América Latina que inscreveram o novo cosmológico, em relação à tradição do oprimido e inscreveram-se no coração do horizonte de expectativa de sua época, porque, para superar a tradição do oprimido, o que o nosso presente nos cobra é a projeção inventiva do horizonte de expectativa de uma destradição de desoprimidos, tecida e entretecida pelo vivo presente que nos toca estar, acontecer, criar. 
Consideremos casos de criação como os do brasileiro Sousândrade, no final do século XIX, absolutamente ignorado, seja em função do hermetismo de sua poemática, seja por sua temática cacofônica, orquestração de ruídos urbanos. Consideremos também o caso do uruguaio Lautréamont, com seu verbo poético sem pátria, sem língua mátria, artificioso; consideremos o hermetismo do sistema poética do mundo do cubano José Lezama Lima; antissistema utópico transtemporal e transespacial, cubano, cosmológico. 
Consideremos… os exemplos são indefinidos, múltiplos, felizmente. 

FM: Em tuas notas iniciais ao livro América Latina, literatura e política (2011), sugeres uma relação possível, no ambiente latino-americano, entre barroco e surrealismo. Se é verdade que houve uma fusão maravilhosa do espírito caudaloso de ambas referências, por outro lado houve rejeição, seja do ponto de vista acadêmico ou religioso, do acasalamento dessas duas correntes. Gostaria de saber o teu ponto de fervura de conjunção desses elementos. 

LES: Não acredito no acreditar em algo que seja algo antes que se faça algo sem ser. Digo isso porque o argumento de que somos barrocos ou surrealistas ou qualquer outra inscrição subjetiva e expressiva, para nós, latino-americanos, e para os africanos, europeus, americanos, orientais, constitui apenas – e destaco o apenas – mais uma forma dentre outras de nos tomar, apreender, prender, confinar em um segmento de identidade; a nós e a qualquer outro nós supostamente não nós. 
Recordo, a propósito, da última entrevista concedida por Ángel Rama, a Jesús Díaz-Caballero, na qual o autor de Transculturación narrativa en América Latina disse: “el pátio de mi casa es particular, quando llueve se moja como los demás”. 
Aproveito o gancho para dizer que estamos todos duplamente molhados pela chuva de existir, tendo em vista duas perspectivas: uma primeira marcada pelo passado, a que chamarei de museológica; uma segunda, plena de futuros, a que chamarei de cosmológica. 
A primeira, a museológica, diz respeito ao peso da metafísica do trágico e bélico humanismo do ontem; tremendo peso de impotências ligadas aos fazeres, dizeres, ouvires, impores e seres que temos sido, através deste longo fardo de memórias da milenar tradição do oprimido, para lembrar Walter Benjamin, que nos pesa nas costas e nos tolhe, nos faz impotentes, realistas do pior de nós mesmos. 
Existe, pois, um modo museológico de nos fazer barrocos e surrealistas, na suposição de que o que consideramos ser a realidade, esse fracasso do homem, conforme Cortázar, para nós, latino-americanos, deva ser um retorno medieval ao corpo das contradições entre a transcendência e a imanência, como é o caso da expressão barroca museológica; ou, por outro lado, deva fazer-se como id ambulante de um individual inconsciente em guerra com o ego e com o superego, como no caso do surrealismo museológico. 

FM: E quanto a tua ideia de uma cosmologia? 

LES: Sob o segundo ponto de vista, a do barroco e do surrealismo cosmológicos, aí sim, aí a questão que ora me faz delirar se torna potencialmente instigante, pois o nosso lado barroco e surrealista é precisamente o que se opõe ao peso da tradição do oprimido, de nosso passado como oprimidos, para se tornar pleno de futuros. 
Explico. Diferentemente do barroco e do surrealismo museológicos, o barroco e o surrealismo cosmológicos afirmam a nossa imanência sem se prenderem a transcendências colonizadoras, sem, portanto, as transcendências religiosas (sem Deus), ou estatais (a acadêmica república das letras) ou políticas, como a transcendência dos cânones estéticos logocêntricos. 
É a potência do cosmos que transforma o barroco museológico em cosmológico, pois o cosmos é o ponto de vista multifacetário em que todos os dilemas entre transcendência e imanência do barroco museológico se tornam risíveis, de tão ridículos, de modo que o retorno à Idade Média do Barroco museológico se transforma em retorno ao mundano corpo do mundo, logo ao corpo das misturas alquímicas entre as potências expressivas de todos os povos e singularidades, coletivizando-nos, assim, como comuns, terráqueos, tal que passamos exprimir a Terra em relação ao cosmos, afirmando a imanência daquela pela transcendência deste, sem dilemas. 
O barroco do brasileiro Aleijadinho e do peruano índio Kondori são dois exemplos fabulosos de expressividades barrocas que indiciam, no interior do século XVIII latino-americano, o futuro do barroco cosmológico, no interior do século XX latino-americano, porque ambos exprimiram barrocamente a nossa imanência rebelde como mistura alquímica de povos agitados pelo ponto de vista cosmológico de ser outro de outro de outro, sem cessar, como futuro (embora haja neles ainda bastante peso de passados museológicos), porque ser outro de outro, nesse caso, é não ser o que fomos, ou a nossa herança de nós mesmos, mas o que nos fazemos ser no processo de inventar-nos, como órfica imanência a encantar os infernos de existir na Terra em face do infinito cosmológico. 
O poeta cubano José Lezama Lima, na plutônica imanência do século XX, produziu uma poética, por paradoxal que pareça, marcada pelo barroco cosmológico, porque, diferentemente do barroco museológico, o cosmológico não está preso a período histórico algum, pois o dilema religioso entre imanência e transcendência, assim como o não menos religioso retorno ao mundo medieval, inexiste no barroco cosmológico, de vez que este, sem dilemas, constitui-se a partir da agitação da transcendência cosmológica no rés-do-chão do vivo. 
José Lezama Lima é o poeta barroco cosmológico por excelência, pois sua poética, seu sistema poético do mundo, melhor dizendo, nada mais é que o resultado das potências cosmológicas agitando a imanência dos tempos e espaços, como eras imaginárias de todas as misturas. Ele é o barroco poeta cosmológico do século XX porque o retorno aos tempos e espaços passados de sua poética não é estanque, saudosista, memorialista, mas cosmológica agitação transcendental dos futuros que não fomos, por geralmente exprimirmos tendo em vista o limitado horizonte museológico da tradição do oprimido, esta que nos condena a ser a herança funesta daquilo que fomos ao não sermos: impotências. 

FM:O que faz com que um país tão marcado pela miscigenação, com frutos valiosos em sua árvore cultural afinados justamente por esse diapasão mestiço, tenha uma regência intelectual tão cartesiana, ao ponto de praticamente sugerir a existência de dois mundos disputando pela existência em um mesmo espaço-tempo? 

LES: Imagino, sem o dizer explicitamente, já ter respondido essa pergunta. Por outro lado, penso, explicitamente, que essa não é uma questão latino-americana. O infernal mundo em que vivemos é o mesmo por todo o lado, porque vivemos sob o manto mortuário de um mesmo sistema opressivo, de tutela universal. 
Embora a mestiçagem tenha sido apropriada pelo positivismo fascista como estratégia de embranquecimento dos povos latino-americanos – e não apenas o brasileiro –, de modo algum deva ser definitivamente descartada, como se fosse sempre um procedimento racista, eugênico. 
Toda afirmação de si, seja qual for, é eugênica, de modo que existe também eugenismo negro, embora seja compreensível, num contexto cultural adverso como o nosso, no qual a autoafirmação muitas vezes é o único caminho viável para manter a coesão de comunidades inteiras em risco de subsumir-se aos genocídios econômicos, culturais, religiosos, étnicos e bélicos. 
Somos cartesianos porque somos tomados pelos eugenismos imperiais e temos medo, por isso mesmo, de assumirmos sem cessar a mistura de tudo que existe como matrimônio comum das expressividades vitais do passado e do presente. 
Somos cartesianos porque queremos ser o que nos submete e inviabiliza; porque somos incapazes de expressar-nos num mundo sem prostituição, sem cadeias, sem complexos, no Matriarcado de Pindorama em que tudo é de todos e de ninguém, antropofagicamente, vivamente, comumente. 
Eis porque existe literatura menor, na América Latina, quando nos misturamos, sem hierarquias, de menores para menores. 
É aqui que o barroco e o surrealismo cosmológicos latino-americanos vêm a calhar, nunca a calar, na potência mundana das misturas indiscerníveis que os potencializa a exprimir nossas menoridades não eugênicas. 

FM: Em um capítulo dedicado ao que chamas de “sertões da literatura” reúnes textos sobre Graciliano Ramos, Clarice Lispector, João Gilberto Noll e Guimarães Rosa. Qual o diapasão possível que aproxima esses autores? 

LES: Se o que marca o modernismo, como potência, é a emergência histórica de um mundo laico, sem Deus, ele, o modernismo, inaugura, como nunca, três consciências agônicas intercambiáveis: 1) a consciência agônica de que somos mortais e de que, por consequência, nada nos garante ou fundamenta; 2) a consciência expressiva de que, num mundo sem fundamento, tudo é possível, de modo que sempre estamos nos experimentando e que esta, a experimentação, como esboço de esboço de esboço, é a única verdade constituinte; 3) a rebelde consciência agônica de que, como mortais, somos comuns e, portanto, como comuns, todo privilégio é um sequestro da vida comum, uma forma de implantar Deus, logo a hierarquia, na vida, obstaculizando a livre experimentação. 
Meu interesse em Clarice Lispector, João Guimarães Rosa e João Gilberto Noll advém do desejo de abordá-los sobre este prisma: o modo como se expressaram utopicamente, no caso de Guimarães Rosa; através de uma mistura entre experimentação utópica e niilista, no caso de Clarice Lispector; e uma terceira cínica e predominantemente niilista, no caso de João Gilberto Noll. 
Não os considero, pois, em suas respectivas semelhanças, mas em suas diferenças, procurando analisar a relação dessas expressões ora cínicas, ora niilistas, oras utópicas, com a época histórica em que viveram e vivem. 

FM: O campo discursivo da literatura por vezes elimina a diversidade e se limita a uma cadeia mínima de argumentos estéticos. Há um padrão de leitura, cujos argumentos tomam por base certos interesses na apresentação de uma tese. A riqueza de determinadas literaturas se ressente desse ambiente restritivo. A riquíssima veia artística brasileira a todo instante é atropelada por coerções morais, políticas, religiosas. E, no entanto, sobrevive, como um baú sem fundo, porém estratificada, em muitos casos: mundana. Qual papel desempenha aqui o mundo acadêmico? 

LES: O modernismo, em seus começos utópicos, rebeldes e laicos, não separou experimentação estética da ética, da econômica e política. A emergência de um mundo sem Deus estava implicada com a incessante experimentação de todas as dimensões sociais. 
Marx, sob esse ponto de vista, foi um utópico escritor experimental modernista, embora ainda estivesse limitado compreensivelmente por um mundo já profundamente cindido pela divisão social do trabalho. 
O confinamento da experimentação ao campo estético foi o resultado orquestrado da divisão social do trabalho, marca de nossa sociedade, e criou o esdrúxulo e pretensioso monstro de uma concepção autocentrada de experimentação, que vale por si mesma, feliz com sua separação, confinamento e restrita imanência elogiosa e religiosa de valorização das obras literárias marcadas pela autonomia isolada de si mesmas, como um círculo vicioso de um Ulisses que termina como iniciou, cosmogonicamente, no lugar de cosmologicamente. 
Essa concepção autocentrada de experimentação produziu frases tautológicas e infantis como esta: “O compromisso da literatura é com ela mesma”, comum em bocas bem pensantes de professores de literatura. 
A situação é tão ridícula e impotente, porque feliz com seu confinamento autoexperimental, que mal sabemos que a frase mais citada por professores de literatura, a de que “Não existe arte revolucionária sem forma revolucionária” não passa de um eco epigônico, pretensioso e impotente do que dissera originalmente o cineasta russo Sergei Eisenstein: “Não existe arte revolucionária sem conteúdo revolucionário”. 
Esta é, portanto, a lastimável situação em que nos encontramos, tanto sob o ponto de vista da criação quanto sob o prisma da crítica: reificamos a forma numa civilização em que a forma é o valor dos valores, a reificação absoluta, inconteste, imperial – e ainda nos achamos revolucionários. 
No final de Marxismo e filosofia da linguagem, Mikhail Bakhtin, seu autor, fala com muita propriedade sobre essa questão. O teórico da linguagem russo termina o livro dizendo que a literatura se transformou em pura reificação da forma, comportamento tipicamente burguês, e que, por isso mesmo, o que conta, hoje, é o reino das reificadas opiniões notórias, teóricas e criativas; e que, por consequência, a palavra com seu tema intacto, mesmo em delírio, foi proscrita e é negada como engajamento simplista, djanovista. 
Não sou, obviamente, djanovista. Defendo a experimentação sem limites, polifônica, procurando não deixar nada de fora, nem a forma, nem o conteúdo, nem nada. 
Penso que a infelicidade da restrição expressiva de obras consideradas engajadas, com suas tramadas tramas monológicas, limitadas, é consequência direta de um mundo que confinou a experimentação, quando muito, ao campo estético e, como uma coisa leva a outra, experimentamos, reificando a forma, esteticamente e não o fazemos no campo da economia, da política, das profissões, das ideias, porque o seu lugar já foi estrategicamente definido e permitido: o campo estético. Esse é o grande êxito da divisão social do trabalho; separar-nos. 
Acredito que não existe alternativa para esse beco sem saída em que nos metemos enquanto nos encontrarmos separados e isolados. Logo, enquanto ficarmos felizes com o confinamento da experimentação estética, como se fora um estado de exceção criativo da tradição do oprimido. 
E não tem sido? 

*Floriano Martins (Ceará, 1957) é poeta, editor, ensaísta e tradutor. Dirige a Agulha Revista de Cultura (www.revista.agulha.nom.br) e colabora semanalmente com o DC Ilustrado com uma série de entrevistas que futuramente reunirá em livro intitulado Invenção do Brasil. Contato: arcflorianomartins@gmail.com.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Eclipse - Stephenie Meyer [#3]

Continuando minha saga de leitura, 51 Livros em 2012, vamos para a resenha de "Eclipse". [CONTÉM SPOILLERS] 
Terceiro volume da bem sucedida saga Twilight, "Eclipse" é um livro um travado.
Inicialmente achei que o dilema "Bella-vira-ou-não-vira-vampira" fosse finalmente ter uma solução. Mas... me enganei com força. O livro fica no arrastar interminável das quedas de braço mentais de Bella consigo mesma, indecisa (!) entre Edward e Jacob. Ou melhor, Bella está decidida a aceitar como fato inconteste que sua existência na Terra depende do ar que Edward (não) respira. Porém, não consegue esquecer Jacob. E neste cabo de guerra, que se desdobra em bate bocas, rosnados, sibilos (e até latidos) entre Edward e Jacob, beijos roubados, mal entendidos e noites insones, vai-se mais da metade do livro. 
Paralelo a isso, sabe-se que há um exército de recém-criados a solta. Eles estão atacando Seattle, espalhando o pânico e o terror. Sobre eles a autora faz tanto mistério, mas tanto mistério ao longo do livro que, quando ela finalmente explica, o saco já encheu. 
No fim das contas, Victoria ressurge para dar (pelo menos isso!) um pouco de adrenalina a história. (Mas não espere muito do conflito final entre ela e Edward, O Perfeito.) 
Pontos para a história de Jasper e Alice, a cena da festa em torno da fogueira, onde Bella ouve as lendas quileutes sobre a origem dos Lobos, e o melancólico diálogo que marca a aproximação entre Rosalie e Bella, com a revelação do passado triste da vampira. 
Embora tenha agradado a muita gente, a saga realmente não me convenceu. O fato de que Bella Swann foi criada para ser um arquétipo com o qual 9 entre 10 adolescentes se identificariam, pode explicar boa parte do sucesso que Twilight faz. Mas o que faz as garotas suspirarem por Edward, uma criatura tão insossa, eu ainda não entendi. Jacob dá de mil a zero nele, em todos os sentidos. Terminei o terceiro livro sem saber, ainda, a que ele veio. 
Breve, resenha do último livro da série, “Amanhecer”.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Lua Nova - Stephenie Meyer [#2]

"Lua Nova" foi o segundo livro do desafio "51 Livros em 2012". Terminei de ler há duas semanas, mas só agora pude fazer a resenha. Estava me mudando. O caos na Terra. Ai, ai.
Havia ficado curiosa para saber o rumo que a autora daria ao casal Bella e Edward. Peguei o livro e fui em busca de respostas para as minhas perguntas. Edward toparia tornar Bella imortal? A autora arranjaria outra solução para a dupla? Qual seria a história por trás da família Cullen? Edward é endotérmico ou exotérmico? Por que não existe McDonald´s em Forks? Enfim...
Continuei achando Edward maçante. Sei que ele tem inúmeras fãs, e respeito todas elas, mas ele não conseguiu me conquistar. Acho que faltou carisma, sei lá. Jacob, por sua vez... ai, ai... [suspira] O que é aquilo, hein? [suspira de novo]
Sim, o Jacob me conquistou e, durante a leitura, houve trechos em que tive vontade de sacudir Bella e dizer a ela "Acorda, minha filha!". Como Jacob preenche praticamente todo este livro, é natural que eu tenha realmente me afeiçoado mais a ele. A autora deu muito carisma ao personagem, além de uma fidelidade canina (sem trocadilhos, ok?) a Bella. Por mais que ele apanhe, ele não desiste dela. Linda relação.
O livro não me deu muito o que falar. Não impressionou muito, exceto pelos capítulos finais, que são realmente eletrizantes. Também gostei muito do recurso que a autora usou para enfatizar a passagem de tempo e o vazio. (sem detalhes, para não virar spoiller. Quem leu sabe do que estou falando.)
Em todos os aspectos - e talvez tenha sido isso mesmo o que Stephenie Meyer quis passar com esse volume - "Lua Nova" me pareceu um rito de passagem, uma preparação para o porvir. No fim dele, todos se tornaram, de um jeito ou de outro, adultos.
Na próxima resenha, vou falar das minhas impressões sobre "Eclipse", ainda no projeto 51 livros em 2012.
Beijos da Drica :-)

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Crepúsculo - Stephenie Meyer [#1]

"Crepúsculo" abre a maratona "51 livros em 2012", proposta pelo Alquimia dos Romances. Escolhi especificamente esta série porque ela estava encalhada na minha estante fazia mais de um ano. Eu havia folheado o primeiro livro, lido algumas páginas mas, como a narrativa não havia me prendido, eu deixei de lado. Pois bem, a proposta da Elimar veio para me ajudar a tirar o mofo de Bella, Edward e cia.
Muita gente já falou, leu, comentou e brigou por conta desta série. Neste primeiro livro eu me esforcei ao máximo para dissociar a imagem dos personagens dos atores que os interpretaram no cinema. Isso porque eu, particularmente, acho o casal um verdadeiro picolé de chuchu. Diet. Enfim, há quem goste.
O livro é bem escrito. O uso da primeira pessoa sempre dá um toque mais angustiado, uma sensação quase que claustrofóbica a trama. Ficar preso a uma só visão, sem aquela onisciência do narrador em terceira pessoa, captura a atenção do leitor com muita eficiência. Stephenie Meyer soube fazer excelente uso deste recurso.
A saga de Bella, a mais nova habitante - a contragosto - da chuvosa Forks, começa bem devagar. Eu confesso que custei a engrenar o ritmo da leitura, mas fui adiante. Achei muito frequentes as referências a falta de jeito da personagem, a sua inadequação e a sua total falta de traquejo social. Entendo que a autora quisesse demonstrar uma jovem comum, desajeitada e tímida, mas o reforço dessa "esquisitice" praticamente a cada duas páginas me irritou um pouco. Gostei da relação dela com o pai, um misto de estranheza, delimitação de território e camaradagem silenciosa. Vamos ver como evolui nos outros livros.
O aparecimento de Edward foi um dos pontos que também testou minha paciência. Até praticamente a metade do livro eu tive que fazer força para simpatizar com ele. De tão misterioso, ele começou a ficar cansativo. De tão reticente, ele parecia que não tinha mesmo nada a dizer. Somente quando um pouco da história dele, de sua família, e também dessa dinâmica familiar começaram a ser - enfim - revelados, foi que comecei a gostar do personagem. Falando na família Cullen, simpatizei muito com Alice!
Pelo que percebi, o livro deixou inúmeros ganchos nas entrelinhas, prontos para puxarem o resto da saga. A autora soube despertar a curiosidade dos leitores, com cenas cheias de suspense, embora de certa previsibilidade. 
Sei que o estardalhaço em torno da saga se deve mais a questões de marketing. Não é uma obra prima - e duvido que Stephenie Meyer tivesse esta pretensão - mas é um livro interessante para ler num dia de folga. Tem humor, mistério, suspense, romance, ação e deixa portas abertas para continuações - coisa que leitores a-do-ram!
Agora, vou pegar o segundo volume da série e ver no que dá.


CREPÚSCULO
Twilight
Stephenie Meyer
Intrínseca, 2008
416 páginas

domingo, 1 de janeiro de 2012

A literatura brasileira em busca de difusão mundial

Por Guilherme Freitas - Agência O Globo

RIO - Historicamente defasada, a difusão da literatura nacional no exterior ganhou um incentivo neste ano, com a reformulação do programa de estímulo à tradução da Fundação Biblioteca Nacional (FBN). Anunciado em julho, durante a nona edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), o novo programa prevê investimentos de R$ 12 milhões até 2020 na edição de obras brasileiras em outros países. Um dos objetivos imediatos do projeto é alavancar a participação do país em grandes eventos internacionais: nos próximos anos, o Brasil será convidado de honra das feiras de Bogotá, em 2012, Frankfurt, em 2013, e Bolonha (maior feira de livros infantis do mundo), em 2014.O primeiro edital do novo programa (com inscrições abertas no site www.bn.br) oferecerá R$ 2,7 milhões para a edição de obras nacionais no exterior até agosto de 2013, dois meses antes da presença do Brasil como país convidado no maior evento editorial do mundo, em Frankfurt.

Articulação entre instituições
Em entrevista ao GLOBO em julho, o presidente da feira, Juergen Boos, elogiou o programa de tradução, mas ressaltou que o sucesso da participação brasileira ainda exige mais articulação entre governo e editoras e intercâmbio com instituições culturais alemãs.
A internacionalização da literatura brasileira foi discutida também na 25 Bienal do Livro do Rio, quando a FBN organizou uma exposição sobre a tradução de clássicos como Guimarães Rosa e Clarice Lispector. Mas o tamanho do desafio foi ilustrado pela informação, divulgada durante o evento pela organização da Feira de Frankfurt, de que as editoras alemãs têm hoje apenas 61 títulos brasileiros em catálogo - 30 deles de Paulo Coelho.

Veja mais alguns destaques do meio editorial em 2011:
BIENAL NO LIMITE: Realizada em setembro, a 25 Bienal do Livro do Rio teve o maior público de sua história, 670 mil visitantes em 11 dias. A feira teve faturamento recorde de R$ 58 milhões (12% a mais que a anterior), mas a confusão e os problemas de infraestrutura nos dias mais movimentados levaram a organização a afirmar que o evento atingiu sua capacidade máxima.

PENGUIN NO BRASIL: Em dezembro, a Companhia das Letras anunciou que a britânica Penguin, com a qual é associada desde 2009, comprou 45% das ações da editora brasileira. O acordo segue uma tendência de participação crescente de grandes grupos editoriais estrangeiros no Brasil: nos últimos anos, aportaram no país as espanholas Planeta e Santillana e as portuguesas Leya e Babel. O impacto da parceria no mercado brasileiro poderá se fazer notar sobretudo nas áreas de e-books e didáticos, dois focos do conglomerado editorial Pearson, dono da Penguin.

RUBENS FIGUEIREDO: Um dos principais tradutores do país, Rubens Figueiredo obteve reconhecimento também como escritor neste ano. Seu romance "Passageiro do fim do dia" (Companhia das Letras) recebeu duas das maiores distinções literárias nacionais: o Prêmio São Paulo de Literatura e o Portugal Telecom. Além disso, Figueiredo publicou em dezembro, pela Cosac Naify, a primeira tradução brasileira feita diretamente do russo de "Guerra e Paz", de Tolstói.

CECÍLIA MEIRELES: Com reedições paralisadas há anos por uma disputa judicial entre herdeiros, a obra de Cecília Meireles pode voltar às livrarias em 2012. A editora Global anunciou em dezembro a compra de parte do catálogo da poeta - e ainda dos de Manuel Bandeira e Orígenes Lessa. Depois do anúncio, porém, o advogado de uma das filhas de Cecília contestou o acordo e afirmou que a questão não está resolvida nos tribunais.