Prateleiras

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Filme: The Expendables

Ah, vai. Olhando assim você até pensa: hum, esses coroas ainda dão um caldo...
Faz algum tempo, eu falei aqui sobre o filme "The Expendables" (Os Mercenários). Na época ele ainda estava em processo de filmagem. Infelizmente acabei não assistindo nos cinemas, tendo que apelar para o bom e velho DVD. No fim das contas, foi até bom, porque pude curtir com calma todo aquele climão anos 80 que o filme evoca, acompanhada, é óbvio, pela minha garrafa de Absolut Vanillia (eu devia ganhar com merchandising, né?).
O filme, já vou avisando, não é nenhuma obra-prima. O roteiro é previsível; clichê do início ao fim. Os diálogos parecem que foram cortados pelo meio, ou então, que esqueceram de escrever algumas falas. Os vilões são caricatos e fazem exatamente aquilo que se espera que um vilão faça. Mas, espera aí! Por que então eu estou escrevendo sobre The Expendables pela segunda vez?! Porque eu A-DO-RO ver um clichezão de vez em quando, oras!
The Expendables tem todos os ingredientes daquele filão que lotou cinemas na década de 80 (e em parte dos 90 também): caras durões, militares ou ex, que são provocados por alguém, ou algum acontecimento, e partem para uma heróica jornada para salvar um país pobre, ou uma mocinha indefesa - ou ainda, a ambos. O pessoal que está na faixa dos 30-40 com certeza se lembra de fazer fila na porta do cinema para ver Sly Stallone socando com vontade a cara de Dolph Lundgren em Rocky VI, no auge da Guerra Fria. Ou então de roer as unhas quando o monossilábico Schwarza se cobria de lama e esperava para explodir o caçador alienígena em Predador. Ah, e qual de nós garotas (sim, porque nós íamos SIM ver esses filmes para garotos!) não ficou com peninha do "pobre" Bruce Willis andando sobre todos aqueles cacos de vidro em Duro de Matar??? Era uma mentirada sem fim? Era! Porrada pra todo lado? Com certeza! Machismo até o último fio de cabelo? Yes!  Mas era divertido pracas!
Quem ficou com inveja da Gisele levanta a mão! \0/
No roteiro escrito por Dave Callaham e Silvester Stallone, o grupo de mercenários capitaneado por Barney Ross (Stallone) é contratado pelo misterioso Mr Church (Willis) para dar cabo do ditador que fez da pequena Vilena o quintal de sua casa. Durante a missão de reconhecimento que Ross e um de seus parceiros, Lee Christmas (Statham) fazem a republiqueta, eles conhecem Sandra, (Gisele Itiè) uma das lideranças rebeldes E filha desgarrada do General Garzas (David Zayas), o tal ditador. Ao serem descobertos, os dois fogem do lugar, certos de que foram enviados para servirem de bucha-de-canhão numa missão suicida. Eles ainda tentam convencer a moça a ir com eles, mas não conseguem. E, como era de se esperar, ela acaba capturada pelo sinistro James Munroe (Eric Roberts) o verdadeiro "poder por trás do poder". Claro que a mocinha come o pão-que-o-diabo-amassou-com-o-rabo. E além de ser presa, espancada e torturada, a pobre ainda passa o filme TO-DO com o mesmo fgurino. Aff! Tadinha. Enfim... Ross fica com uma crise de consciência daquelas quando volta para casa. E numa conversa de homem-para-homem-mas-com-sentimentos com Tool (Rourke), misto de guru-roadie-tatuador-e-cafajeste do grupo, o líder mercenário acaba resolvendo voltar a Vilena para salvar a mocinha. Aí é que o pau  come de verdade! E... Bem, não vou continuar contando, senão perde a graça. 
Para quem assistiu os "clássicos" do cine-pancadaria, vai ser fácil reconhecer algumas citações desses filmes em Expendables. Vai ser legal também rever o gigante Dolph Lundgren na pele do impagável e instável Gunnar Jensen; Jet Li e seu cômico Yin Yang, que está sempre querendo aumentar a participação nos lucros, e Terry Crews dando vida ao nada sutil Hale Ceasar. E para quem era fã de Buffy e Angel, vai ser legal também rever Charisma Carpenter, como Lacy, a ex-namorada de Christmas (a cena do jogo de basquete é uma das melhores! Recomendo principalmente para as garotas, rsss). Destaque ainda para Schwarzenegger, que aparece na cena da igreja como um concorrente ao "emprego" oferecido por Mr. Church. Mais citações... E ainda tem as motos dos caras, a trilha sonora pauleira, as cenas cheias de adrenalina....
Em resumo, o filme é exatamente aquilo a que se propõe: uma divertida reunião de antigos ídolos do cinema de ação, onde os caras meio que curtem com os tipos que, um dia, fizeram a fama (e as contas bancárias) de cada um deles.  E se você não tem nada para fazer na tarde de sábado, alugue o DVD, pegue sua pipoca e divirta-se! The Expendables vale pela sessão nostalgia.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

De Joelhos - Ann-Marie MacDonald

Não se conhece um livro pela capa. Tão pouco pelo preço, pela fama, nem mesmo pelo lugar onde você o encontra. “De Joelhos” se encaixa em todas estas categorias. Em todos os sentidos. A capa é sem graça, o livro é basicamente um ilustre desconhecido – e sua autora idem – e eu o encontrei num feira de livros de um hipermercado (leia-se: “estamos nos desfazendo do encalhe”) por míseros R$ 7,00. (Isso mesmo! SETE REAIS por 543 páginas de BOA Literatura). 
"De joelhos" não é uma leitura fácil. E também não tem vampiros e lobisomens adolescentes, bruxos simpáticos em idade escolar, anjos perdidos na Terra, conspirações seculares ocultas em obras de arte famosas, nem uma brilhante campanha de marketing, dentre outros ingredientes que tornam um livro O queridinho da mídia. Romance de estreia da atriz e autora teatral Ann-Marie MacDonald, foi publicado no Canadá em 1996, mas chegou ao Brasil apenas em 2001, pela Record, sem muito alarde. Porém, apesar da discrição de seu lançamento, na contra capa há um trecho da crítica do Sunday Telegraph que diz “Parece quase injusto que ela tenha escrito um primeiro romance tão brilhante.”, como a nos avisar de que temos nas mãos material de primeira. E é verdade!
O livro é enorme, complexo e cuidadosamente urdido. Conta a história de James Piper, um jovem de ascendência gaélica cujas origens humildes impulsionam uma grande ambição. A rudeza da jornada de James contrasta com a sutileza de sua profissão: afinador de pianos. E é através desta mesma profissão que ele conhece a jovem Materia Mahmoud, filha de prósperos comerciantes libaneses radicados em Cape Breton Island, na província da Nova Escócia, Canadá. A partir deste ponto tem início uma saga de proporções épicas, que conta a história da família Piper, e de suas filhas – Kathleen, Frances, Mercedes e Lily.
Cheio de recursos teatrais, cortes bruscos e flashbacks, “De Joelhos” faz com que viajemos do fim do século XIX até meados do século XX. O texto atravessa, inexorável, a crueza da Primeira Guerra e suas trincheiras enlameadas, que cheiram a morte e pólvora. Conduz-nos pelo ensaio da Grande Depressão, que não causa tanto alarde no desolado vilarejo dos Piper, que já parece ter nascido com os matizes cinzentos de 1929. Leva-nos a uma viagem pelas destilarias clandestinas em plena Lei Seca, por prostíbulos imundos e sórdidos onde os mineiros, os vagabundos e toda sorte de desafortunados paga para beber “o veneno”. E também pela Nova York dos loucos anos 20, pelos clubes noturnos onde o jazz e o blues nasciam, sob os aristocráticos narizes da elite branca, como música de “gente de cor”. 
Neste universo vibrante, as irmãs Piper vivem uma saga que junta amor, ódio, culpa, sexo, incesto, alcoolismo, suicídio e assassinato como se fosse uma sinfonia, perfeitamente orquestrada pela autora. Cheio de ação, o livro é entremeado por períodos de calmaria, que dão a falsa impressão de que o enredo “cansou”, ou que entrou numa fase em que nada está acontecendo. Porém, as verdades da trama estão ali, aparecendo de vez em quando, botando o nariz para fora da cortina de acontecimentos que Ann-Marie criou. E no final, quando ela junta todas as peças do quebra-cabeças, é que o leitor pensa naquela cena, 200, 300 páginas atrás, e diz para si mesmo: “Ora, não é que estava mesmo tudo ali?”
Agarre este livro quando ele cair em suas mãos e leia-o. É inesquecível. E quando chegar ao final dele, uma dica: feche-o, dê uma volta, e depois abra-o e leia o Prólogo novamente. Você vai entender o porquê de eu acha-lo genial.

FICHA TÉCNICA:
De Joelhos
Autora: Ann-Marie MacDonald
Título Original: Fall On Your Knees, 1996, Canadá
Tradução: Maria de Lourdes Menegale
ISBN-10: 8501050776 

Record, 2001

543 páginas
SINOPSE: Por meio de recortes e flashbacks a autora apresenta a saga de quatro gerações de uma família que migra para o Canadá. O leitor passeia pela sangrenta Primeira Guerra Mundial, pela Depressão e a Leia Seca, e conhece a história de quatro irmãs, filhas de um afinador de piano escocês. A culpa, o pecado, a violência e a repressão escondida sobre uma fina camada d equilíbrio familiar vêm à tona em uma prosa densa e poética.